Photo 11 Dec A luz apagada. Iluminando o quarto, apenas a luz da Lua que entrava pela janela.  As cortinas balançavam com a brisa fresca da primavera. Ela me olhava. Eu sabia que ela me olhava porque seus olhos brilhavam constantes, mesmo que a luz oscilasse. Eram duas estrelas esperando pelo meu desejo. Eu podia sentir eles se extinguindo enquanto sua luz viajava anos-luz para chegar até mim. 
Eu tinha medo de que quando chegasse até eles e adentrasse suas profundezas, ela não existisse mais. Medo de não enxergar no meio da poeira estelar ou de continuar caindo infinitamente no buraco negro que começava em suas pupilas. 
Nem um, nem outro. De frente para o espelho ainda tento alcançar esses olhos que me fitam incessantemente, talvez, procurando em mim o que procuro neles.

A luz apagada. Iluminando o quarto, apenas a luz da Lua que entrava pela janela.  As cortinas balançavam com a brisa fresca da primavera. Ela me olhava. Eu sabia que ela me olhava porque seus olhos brilhavam constantes, mesmo que a luz oscilasse. Eram duas estrelas esperando pelo meu desejo. Eu podia sentir eles se extinguindo enquanto sua luz viajava anos-luz para chegar até mim.

Eu tinha medo de que quando chegasse até eles e adentrasse suas profundezas, ela não existisse mais. Medo de não enxergar no meio da poeira estelar ou de continuar caindo infinitamente no buraco negro que começava em suas pupilas.

Nem um, nem outro. De frente para o espelho ainda tento alcançar esses olhos que me fitam incessantemente, talvez, procurando em mim o que procuro neles.

Photo 31 Oct As rosas florescem no asfalto

As rosas florescem no asfalto

Photo 16 Oct Foi em um sábado, final de tarde quando o celular tocou. Era meu pai:
- Pedro? O Flávio se matou. Vem pra cá.
 Moro com a minha mãe que engravidou há vinte anos quando ela tinha apenas dezoito. Foi no mesmo ano em que a mãe do Flávio - meu irmão – engravidou dele e em que a esposa do meu pai dava a luz ao segundo filho deles, o Felipe. Eu e o Flávio conhecemos nosso pai no mesmo dia, quando tínhamos treze anos, porque a minha madrasta decidiu que seria injusto privar-nos da figura paterna. Ele arrumou uma briga com o Felipe na primeira meia hora. Eu fiquei indiferente, achei que nenhum deles poderia mudar minha vida. Antes tivéssemos sido privados da tal figura.
O Felipe nasceu parecido com a mãe, moreno e alto. Eu e o Flávio éramos quase transparentes de tão brancos. Ele era loiro, eu tenho o cabelo preto como os de meu pai. Os olhos são a única coisa que nos denuncia como família, nós quatro tínhamos os olhos castanho-claro, mas que mudam para um verde intenso e brilhante quando algo não vai bem.
Quando cheguei a casa os dois pares de olhos brilhavam- cada um por seu motivo- mesmo na garagem escura na qual ouvi o que havia acontecido.  Eles tinham visitado o Flávio na clínica de reabilitação em que ele estava internado por causa das drogas. Meu pai é policial e deixou a arma com o Felipe enquanto falava com o médico. A arma que o Flávio usou para se matar. Os olhos do meu pai escancaravam sua culpa, os de Felipe o seu ódio por ter de suportar o irmão, que mesmo morto o forçava a lembrar de que o seu herói, nosso pai, causara tanta desgraça.
O Felipe não parava de repetir que alguém que havia sido concebido da forma que nós fomos não podia dar certo na vida. O suicídio confirmava sua tese, mas eu estava ali. Minha indiferença se dissolveu, eu tinha que nos defender, ironicamente, mais pelo que já tinha ido do que por mim que ainda tinha de aguentar a humilhação. Procurei por meu pai em busca de apoio, mas a culpa o diminuíra, não parecia mais estar ali. Estava encolhido, não falava, nem se mexia. Não quis mais me defender, não importava o que gritassem, ele que antes era tão imponente curvava-se agora, como se esperasse que alguém o olhasse e sentisse pena, mas ao invés de pena, me senti vingado.
Só me importei em enterrar meu irmão e seguir o que ele havia me falado da última vez que o vi. “Não vale a pena. A minha raiva, a sua indiferença, a preocupação ou mesmo o amor. Tudo isso não vale a pena só pra você achar que tem alguém”. Ele precisou estourar a cabeça pra fazer tudo isso parar, eu preferi virar as costas. Não queria mais irmão, pai, família, nada.

Foi em um sábado, final de tarde quando o celular tocou. Era meu pai:

- Pedro? O Flávio se matou. Vem pra cá.

 Moro com a minha mãe que engravidou há vinte anos quando ela tinha apenas dezoito. Foi no mesmo ano em que a mãe do Flávio - meu irmão – engravidou dele e em que a esposa do meu pai dava a luz ao segundo filho deles, o Felipe. Eu e o Flávio conhecemos nosso pai no mesmo dia, quando tínhamos treze anos, porque a minha madrasta decidiu que seria injusto privar-nos da figura paterna. Ele arrumou uma briga com o Felipe na primeira meia hora. Eu fiquei indiferente, achei que nenhum deles poderia mudar minha vida. Antes tivéssemos sido privados da tal figura.

O Felipe nasceu parecido com a mãe, moreno e alto. Eu e o Flávio éramos quase transparentes de tão brancos. Ele era loiro, eu tenho o cabelo preto como os de meu pai. Os olhos são a única coisa que nos denuncia como família, nós quatro tínhamos os olhos castanho-claro, mas que mudam para um verde intenso e brilhante quando algo não vai bem.

Quando cheguei a casa os dois pares de olhos brilhavam- cada um por seu motivo- mesmo na garagem escura na qual ouvi o que havia acontecido.  Eles tinham visitado o Flávio na clínica de reabilitação em que ele estava internado por causa das drogas. Meu pai é policial e deixou a arma com o Felipe enquanto falava com o médico. A arma que o Flávio usou para se matar. Os olhos do meu pai escancaravam sua culpa, os de Felipe o seu ódio por ter de suportar o irmão, que mesmo morto o forçava a lembrar de que o seu herói, nosso pai, causara tanta desgraça.

O Felipe não parava de repetir que alguém que havia sido concebido da forma que nós fomos não podia dar certo na vida. O suicídio confirmava sua tese, mas eu estava ali. Minha indiferença se dissolveu, eu tinha que nos defender, ironicamente, mais pelo que já tinha ido do que por mim que ainda tinha de aguentar a humilhação. Procurei por meu pai em busca de apoio, mas a culpa o diminuíra, não parecia mais estar ali. Estava encolhido, não falava, nem se mexia. Não quis mais me defender, não importava o que gritassem, ele que antes era tão imponente curvava-se agora, como se esperasse que alguém o olhasse e sentisse pena, mas ao invés de pena, me senti vingado.

Só me importei em enterrar meu irmão e seguir o que ele havia me falado da última vez que o vi. “Não vale a pena. A minha raiva, a sua indiferença, a preocupação ou mesmo o amor. Tudo isso não vale a pena só pra você achar que tem alguém”. Ele precisou estourar a cabeça pra fazer tudo isso parar, eu preferi virar as costas. Não queria mais irmão, pai, família, nada.

Photo 15 Aug “ It’s a big, bad world full of twists and turns and people have a way of blinking and missing the moment.”
Californication

 It’s a big, bad world full of twists and turns and people have a way of blinking and missing the moment.”

Californication

Photo 8 Jun

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